Menos um! — Liliane Alves!
A escritora Liliane Alves aceitou um desafio de escrita, proposto pela, também escritora, Adriana Campos.
E o resultado é o texto abaixo.
MENOS UM
Pronto. Mais um. Ou seria menos um?
Odeio meu trabalho. Mas alguém tem que fazê-lo. Não é um dom, mas poucos conseguem fazer tão bem, tão rápido e certeiro o que eu faço.
Não escolho ninguém, nesse caso, apenas sigo ordens. Não faço ideia de quem faz as listas, só sei que preciso segui-las.
O nosso presente não é perfeito. Na verdade, presente mesmo é o que os habitantes do passado nos dão. Estamos aqui graças a eles.
Todos me dizem para não me afeiçoar a eles, mas tenho pena, sim. Se culpam por escolhas erradas que julgam terem feito, mas mal sabem eles que não têm escolha alguma.
Se soubessem que tudo já está escrito, viveriam em paz e mais felizes.
Dizem que se soubessem que não mandam no próprio nariz, cometeriam todo tipo de atrocidade. Mas eu discordo. Uma coisa são os planos da vida serem traçados previamente, outra coisa são as consequências dos atos praticados fora dos planos.
Hoje deletei um número que me desagradou ao fazê-lo. Era uma criança. Ela não tinha culpa de nada, mas disseram que o que aconteceu a ela seria para dar sequência nos escritos do outro. Consequência, previamente planejada.
Fico aqui, olhando-os seguirem suas vidas, sem ao menos se darem conta de que seus frágeis olhos não enxergam nada mais além do que lhes é apresentado em três dimensões.
Graças às lentes, vemos além. E graças às máquinas, vamos e voltamos no tempo, tomando deles o que acham que lhes pertence.
Acho que hoje estou mais sensível do que nos outros dias. Fico imaginando se há alguém em outra dimensão fazendo o mesmo trabalho que eu, mas aqui em minha época.
Quando será minha vez? Quem me assiste? Será que me olha com os olhos de dentro, como eu olho os infelizes do passado que só enxergam 3d?
Bem, não há o que fazer. Então sigo meu trabalho, deletando cada número da lista, mesmo sabendo que ninguém deles entende a necessidade disso, muito menos os que ficam, que choram a perda, e seguem à espera da sua própria hora chegar.
Pronto. Menos um.
Liliane Alves
Muito bom, Liliane… Obrigado!