Entrevista de Terça — Rogério Pietro
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Entrevista de Terça.
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Olá Pessoal, boa noite…
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Nosso entrevistado de hoje é o escritor Rogério Pietro.
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Nessa entrevista, ele nos conta um pouco sobre suas leituras, sobre seus livros publicados, sobre ser escritor independente… Conta um pouco sobre sua experiência com o Selo #SaifersBr, sobre a tradução e escrita do RUR, sobre novos projetos, e muito mais!!!
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Bora lá, conhecer um pouco do @autor_rogeriopietro?
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Bem-vindo, Roger!!!
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Obrigado por topar participar desse projeto!!!
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Eu agradeço. Estou honrado por ter a chance de participar desta conversa e mostrar um pouco do meu trabalho para os seus seguidores, amantes das letras e dos livros.
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P1 — Roger, existe uma máxima que diz que todo escritor é um bom leitor… é verdade isso para você? Você lê muito?
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R1 — É verdade, e a razão para isso é que nós escritores gostamos de viver em mundos fantásticos.
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A leitura e a escrita são os dois caminhos possíveis para abandonar o mundo real por alguns instantes.
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Eu leio muito desde a juventude.
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P2 — Dizem que a leitura salva a gente exatamente por isso, nos faz abandonar o mundo real e viajar… Mas a escrita tem esse poder também?
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R2 — Com certeza. Um poder até maior, para mim.
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Quase tudo o que eu escrevo aconteceu antes dentro da minha cabeça como um filme. Tem trilha sonora e tudo.
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Esse é o primeiro momento em que eu me desligo da realidade. O segundo é quando eu tenho a árdua — ainda que prazerosa — tarefa de transcrever em palavras o filme que eu assisti na dimensão mental.
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P3 — Conta pra gente, como começou suas aventuras com a leitura?
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R3 — Meu gosto pela leitura foi estimulado pelo Sir Arthur Conan Doyle. As aventuras de Sherlock Holmes, personagem mais famoso do autor escocês, me prenderam ao hábito.
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Como eu já gostava de ficção científica em outras mídias, como a televisão e o cinema, foi natural que eu procurasse o gênero nos livros.
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Naquele tempo — estamos falando dos anos 80 — não havia grandes livrarias.
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Os livros eram encontrados em bibliotecas, em estantes nos fundos das papelarias, ou nas bancas de jornais. Lembro de ter comprado meu primeiro livro do Isaac Asimov em uma banca.
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O título era “Viagem Fantástica II: rumo ao cérebro”. Com capa mole, papel de polpa amarelada, cheiro de sótão, e o estilo inconfundível do Asimov, aquilo foi um marco para mim.
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Em seguida tive a oportunidade de ler Frank Herbert, autor premiado da série “Duna”, e devo confessar que comecei a ler pelo segundo livro, “O Messias de Duna”, porque foi o que eu achei.
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Também li Arthur C. Clarke, “2001”, “2010”, “2061”, mas percebo que nunca fui fã dele.
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A biblioteca da cidade me ajudava a ler alguns clássicos. Eu lia de tudo, de autores russos a literatura duvidosa.
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P4 — Ah, as bibliotecas… Pena que em tempos de internet e pandemia as bibliotecas estejam ficando meio démodé…
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Bom, nessa sua lista de lugares faltou os sebos, não é? Você chegou a frequentar algum?
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R4 — Muitos.
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Eu imagino que a emoção que Howard Carter teve ao entrar pela primeira vez na tumba do faraó Tutancâmon deve ser igual à que eu sinto ao entrar em um sebo.
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Comprei muita coisa em sebos.
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P5 — Sobre suas leituras iniciais a gente pode perceber a influência de grandes nomes da ficção mundial: Asimov, Herbert, C. Clarke, Conan Doyle… nesse período, algum autor nacional de ficção ou ficção científica chamou sua atenção?
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R5 — Claro que sim. Eu não posso deixar de citar Érico Veríssimo como um modelo para mim.
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A habilidade dele com as palavras é apenas uma das características que me fazem colocá-lo no topo da lista de autores brasileiros.
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Ele tinha a incrível capacidade de não tomar partido por personagens. E isso pode ser visto nos diálogos que ele criava.
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Quando dois personagens discutem num texto do Veríssimo, nem sempre o que os leitores acham que está certo ganha a discussão.
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São diálogos intensos, inteligentes e absurdamente realistas. Seu livro “Olhai os Lírios do Campo” é uma obra prima, mas eu cito “A Ponte” como um dos melhores textos já escritos em língua portuguesa desde a criação do idioma.
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P6 — Que influência bacana! E atualmente Roger, você tem lido mais autores nacionais? Para você o que mudou dos anos 80 para cá?
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R6 — Depois que eu entrei para o selo SAIFERS de autores independentes de ficção científica, tenho lido muito mais os nacionais.
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Tem muita gente boa escrevendo coisas boas aqui… Vou te dizer o que mudou dos anos 80 pra cá.
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Naquela época os garotos queriam ser jogadores de futebol e as garotas queriam casar com jogadores de futebol.
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Hoje eu fico impressionado com a quantidade de jovens que querem ser escritores, que escrevem e publicam seus textos nas mais variadas plataformas.
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Isso aconteceu durante o fenômeno Harry Potter, da J. K. Rowlling. A autora levou os brasileiros a abrirem livros fora do ambiente escolar, e eles descobriram que essa coisa chamada literatura é muito legal.
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Dali para a frente nós assistimos a um boom de aficionados por livros de fantasia, terror, scifi, romances açucarados, infantis. O desenvolvimento das redes sociais ajudou a espalhar essa paixão.
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P7 — Numa questão anterior, você começou a falar sobre a escrita. Você escreve faz tempo? Que gêneros literários fazem parte da sua escrita?
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R7 — Eu comecei a escrever em folhas velhas de papel sulfite. Escrevia com caneta.
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Ganhei uma máquina de escrever no começo dos anos 90, e passava horas todos os dias escrevendo ou transcrevendo o que já existia à caneta.
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Só consegui comprar meu primeiro computador quando virei bolsista da FAPESP, durante o mestrado no Instituto Butantan.
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Eu sempre escrevi ficção científica e fantasia. Tenho muita coisa antiga, daquela época, mas não vou publicar porque não acho que sejam textos bons.
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Eram ensaios, rascunhos, exercícios que me ajudaram a encontrar o meu estilo. Vejo muitos novos autores publicando seus ensaios e penso “que coragem!”.
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P8 — Coragem é o combustível!!! Rsrs… Essa transição de leitor para escritor foi tranquila?
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R8 — Não sei se foi uma transição. Tenho a impressão de que as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
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Ao longo dessa jornada, eu percebi muito cedo que era imprescindível estudar português, regras de pontuação, acentuação, regras de como escrever diálogos, estudar os diferentes estilos e, acima de tudo, nunca acreditar que um texto ficou bom da primeira vez que eu escrevo.
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Isso me ajudou muito. Hoje eu consigo fazer essa revisão crítica em tempo real.
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P9 — Você falou um pouco sobre o selo #saifersbr e escritores independentes. Conta para a gente o que é ser um escritor independente em nosso país? Dá para se viver da escrita por aqui? Você sonha com isso?
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R9 — Ser escritor independente no Brasil é ser um sonhador. É um sonho bom, traz alegrias, esperanças, ideias, mas não paga contas e não enche a barriga.
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É importante saber diferenciar o sonho da ilusão. Eu já fui um iludido, hoje eu sou apenas um sonhador. E os colegas SAIFERS me ajudam a continuar sonhando.
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P10 — Ainda sobre o #saifersbr, esses dias você lançou um livro novo, não foi? Conta um pouquinho sobre ele.
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R10 — Sim, é um conto — na verdade é uma noveleta, mas nem todo mundo está acostumado com essa terminologia.
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O título é “Xeno Sapiens”. Ele fala de como seria um primeiro contato com um grupo de civilizações muito avançadas.
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Eles estacionam a nave perto da Lua e dali se comunicam conosco. A trama toda gira em torno de um condição que eles criam para dar a nós terráqueos a sabedoria interestelar e a tecnologia capaz de nos tirar definitivamente das cavernas.
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Eu já tinha a ideia de escrever essa noveleta há muitos anos. Fui incentivado pelos SAIFERS. Ver meus colegas escrevendo e publicando tantas coisas interessantes é um estímulo e tanto.
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P11 — O “Xeno Sapiens” foi lançado junto com o “Leon esteve aqui”, do Maikel Rosa que também é um @saifersbr… Essa experiência de fazer lançamento duplo é interessante? Você sentiu alguma diferença em relação a lançamentos anteriores?
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R11 — Muita diferença. Lançar um livro sozinho te dá a sensação de ser um pequeno asteroide a meio caminho entre duas estrelas.
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Fazer um lançamento tendo um selo de autores independentes ao teu lado é como ser um cometa em um sistema solar.
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Tudo contribui para acelerar, e você mesmo influencia os outros corpos celestes.
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P12 — Por falar em livros anteriores, quantos você já publicou Roger? Qual foi a história mais difícil de ser tirada da sua cabeça?
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R12 — Tenho treze livros publicados. A história mais difícil, sem dúvida, foi “Predador Alfa”, meu livro mais longo e intenso.
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É uma ficção científica futurista de caçadores interplanetários que disputam um torneio que envolve a caça de animais extraterrestres em planetas com ecossistemas diversos.
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Passei seis meses apenas estudando a teoria da caça, criando os personagens, desenvolvendo a ecologia de cada planeta, os animais fictícios e a trama toda.
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Eram horas de dedicação diária. Depois fiquei quase um ano escrevendo. Para todos os efeitos, “Predador Alfa” é a minha Capela Sistina.
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P13 — Entre esses lançamentos, tem um que chama nossa atenção pela grandiosidade que ele representa, o Amazofuturismo. Conta mais sobre isso, por favor… é um movimento? é um subgênero da FC?
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R13 — O amazofuturismo é um conceito estético dentro da ficção científica.
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A estética da selva amazônica, da fauna, da flora e dos povos indígenas daquele bioma.
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Assim como o steampunk e o cyberpunk têm sua própria estética, o amazofuturismo se baseia nesses elementos para criar um subgênero literário genuinamente brasileiro e com possibilidades impressionantes, afinal ele une ciência e tecnologia futurista à linguagem da selva (lembrando que selva é o termo usado por biólogos para definir uma floresta mais densa).
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Lancei o livro “Amazofuturismo” em janeiro de 2021, o primeiro romance do novo subgênero. Eu também o traduzi e publiquei em inglês, portanto ele se tornou o primeiro livro amazofuturista em língua estrangeira no mundo.
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O enredo se passa em três momentos distintos da nossa história, mas se concentra na época do descobrimento, quando os europeus com suas máquinas de devastação movidas a vapor chegam aqui.
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Mas eles não esperavam se deparar com uma tribo amazônica portadora de uma tecnologia avançada e totalmente integrada à natureza. Este romance explora o choque entre culturas, tecnologias e pontos de vista a respeito de liberdade, respeito, ganância e preservação ambiental.
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Mas eu não vou parar por aí. Vou lançar mais coisas (sim, no plural) amazofuturistas.
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Aproveito para convidar os leitores a conhecerem o site www.amazofuturismo.com.br (link na minha Bio), onde eu descrevo os Quatro Pilares do amazofuturismo.
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P14 — Outro livro que acho surpreendente é o RUR. Traduzir, adaptar, publicar, foi uma baita experiência, não? De onde surgiu esse projeto e como você se envolveu com ele, Roger?
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R14 — Essa é uma história interessante. Ela surgiu de um erro meu. Eu comecei a ler “O Sol Desvelado”, de Isaac Asimov (por sinal não gostei deste livro dele) e, no prefácio, ele cita uma peça teatral tcheca de 1920, chamada “RUR: Robôs Universais de Rossum”.
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Foi nela que a palavra “Robô” foi criada. Então eu pensei “como assim eu ainda não li isso?”. Procurei na internet e, para minha surpresa, não encontrei nada em português.
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O que eu fiz? Decidi traduzir.
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Comecei pelo inglês, mas então descobri que a tradução inglesa de RUR tem algumas mudanças. Parti para o tcheco e corri atrás do manuscrito original de Karel Čapek.
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Não foi fácil, mas foi maravilhoso. Aos poucos fui entrando no universo intenso, profundo e contundente de RUR.
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Aquilo é tão bom que eu comecei a imaginar como seria criar pessoas artificiais chamadas Robôs para substituir a mão de obra humana nos dias de hoje.
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Čapek tinha uma visão tão clara da humanidade que todas as questões que nos provocam na peça de teatro de 1920 são válidas ainda hoje. Foi por isso que eu também escrevi um romance baseado na peça de teatro.
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Está tudo ali: os personagens, as ideias, os acontecimentos, mas ambientados nos dias atuais.
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Depois que eu traduzi RUR, descobri que já havia uma tradução em português, porém com outro nome, por isso eu não a havia encontrado em minhas buscas.
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Esse foi meu erro, e foi ótimo. RUR foi lançado pela queridíssima Editora Madrepérola @editoramadreperola em uma edição única contendo a minha versão em romance e a peça de teatro traduzida.
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Foi a primeira vez no mundo que alguém adaptou RUR para o gênero narrativo.
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E foi com esse livro que eu ganhei alguma visibilidade na ficção científica brasileira e tcheca também, afinal alguns exemplares foram enviados para os museus e bibliotecas relacionados à obra de Karel Čapek.
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Há pouco, participei de um evento no Consulado Brasileiro da República Tcheca, a convite do Cônsul, em comemoração a Čapek. Foi um reconhecimento importante e emocionante.
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P15 — Parabéns, Roger!!! Karel Čapek está orgulhoso do RUR em português!! Em relação a novos projetos… tem novidades pintando por aí, Roger? Você pode contar um pouco sobre?
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R15 — Eu tenho um documento de mais de vinte páginas com ideias para novos livros.
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Cada ideia tem cerca de dez linhas, então você consegue perceber que eu tenho muito trabalho nesta vida.
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Vou lançar um conto amazofuturista muito em breve, já estou trabalhando em outro romance, continuação de Amazofuturismo, e vem lançamento conjunto dos SAIFERS… Mas ainda não posso falar disso.
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P16 — Roger, além do Insta, você utiliza outras redes sociais ou outros meios de entrar em contato com seus leitores?
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R16 — Tenho um site pessoal em eterna construção (como o universo na obra de Douglas Adams, em que Deus mandou a mensagem “desculpem-nos pelo inconveniente”).
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O link para ele está na minha Bio, assim como para o Amazofuturismo e todas as minhas outras obras. Também tenho perfil de escritor no Skoob e no Facebook, que logo vai virar Ruína da Internet…
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P17 — Meu amigo, chegamos aos finalmentes. Nem sei como te agradecer pela disponibilidade e generosidade e paciência… obrigado por topar participar desse projeto. Esse espaço é seu, fique a vontade para seus recados finais.
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R17 — Eu só tenho a agradecer. Pela oportunidade de ser entrevistado por você, e também pela honra de ter sido convidado para o selo SAIFERS-BR, afinal foi você quem me indicou.
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Aos leitores, muito obrigado pelo interesse e pelas avaliações positivas na Amazon e no Skoob. Aos colegas escritores, agradeço o interesse em meu trabalho e desejo que o sonho nunca morra em vocês também.