Entrevista de Terça — Ricardo Pimenta
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Entrevista de Terça.
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Olá Pessoal, boa tarde…
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Nosso entrevistado de hoje é o escritor Ricardo Pimenta.
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Essa é uma daquelas entrevistas que, por parecer tanto um bate-papo, poderia ter acontecido em volta de uma mesa. O Ricardo conta sobre gostos literários e influências na escrita… filosofia, música e antologias. Uma conversa que merece um brinde!
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Bora lá, conhecer um pouco do @autor.rpimenta
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Bem-vindo, Ricardo!!!
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Obrigado por topar participar desse projeto!!!
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Olá Henrique, e aproveito para cumprimentar a todas e todos por aqui.
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P1 — Ricardo, o que representa a Literatura para você?
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R1 — Acho que é impossível escrever sem ler, vejo a leitura como um dos alicerces da escrita, tanto pelo lado de expandir o léxico (quem lê mais aprende e incorpora mais signos — palavras — para usar em sua escrita) quanto pelo lado de encontrar referências e pensamentos.
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Haruki Murakami ainda expande este conceito, ao dizer que “Se você apenas lê os livros que todo mundo está lendo, você só pode pensar o que todo mundo está pensando.” — de fato ler algo novo e diferente significa aprender a pensar algo diferente.
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“A velha e a cebola” de Dostoiévski tem outra “cor” para quem leu “O Inferno” de Dante, ou para quem leu “O Processo”, de Kafka.
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Para mim, e para responder a primeira pergunta, a Literatura é uma janela para expandir a percepção da minha realidade, claro.
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Para além disso, a Literatura me permite sair de meus problemas, anseios e dores e sentir um algo diferente — seja um vento gelado na “Montanha Mágica” de Mann, seja uma aflição criada no inseto de Kafka, seja uma revolta amedrontada nos mundos distópicos de Bradbury ou Orwell.
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P2 — Num primeiro instante, olhando esse time de autores que você citou acima, consigo ver uma ligação entre eles que é a ficção. Tem mais alguma coisa que liga estes autores entre eles e entre eles e você? (o que te atrai na escrita deles?)
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R2 — Definitivamente, gosto de livros que levam à introspecção, a perscrutar aquilo que escondemos de nós mesmo em algum canto escuro nosso.
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Gosto de livros que discutem aspectos existencialistas, e gosto de ler autores e autoras que conseguem descrever com exatidão os sentimentos, as reações, as forças e fraquezas da alma humana.
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Dostoiévski é essencial, nesse aspecto. Ele me descreve com uma exatidão assustadora, mesmo tendo me antecedendo em mais de um século.
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Com eles, aprendi a procurar observar minhas sensações para depois as descrever — talvez seja um dos pontos mais importantes em minha escrita, descrever reações e sentimentos com exatidão.
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É o que tento, ao menos…
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P3 — Fiquei curioso em relação ao seu contato com esses autores… como você chegou até eles? Foi em sua casa, incentivado por familiares? Na faculdade ou no trabalho? Conta para a gente!
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R3 — Comecei a ler com mais frequência na adolescência, lendo fantasia medieval (Dragonlance Chronicles, que amo até hoje).
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Depois, comecei a ler livros de ficção como Machado, Lispector, etc.
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Um dia, fiz um trato com um grande amigo para começarmos a ler os clássicos — começamos com “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, do Weber.
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Depois, “Apanhador no Campo de Centeio” e, finalmente, “Irmãos Karamazov”.
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O grupo de leitura se desfez, mas continuei procurando estes clássicos, até que vi, em uma viagem internacional, o “1Q84”, do Murakami, em uma livraria de aeroporto.
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Comprei e me apaixonei imediatamente — me dava uns sonhos malucos — rsrs. Depois comprei um kindle e comecei a me aventurar pelos clássicos mais intensamente: Bradbury, Kafka, Dostoiévski, Tolstói, Nabokov, mais Murakami, Huxley, Buk, Fante, e assim vai.
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Não tenho muito método, perco-me em tanto querer!
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P4 — Por falar em incentivo, vou mandar uma pergunta difícil… Numa resposta anterior você disse que o “ler algo novo e diferente significa aprender a pensar algo diferente”.
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Como fazer alguém se abrir para a leitura ou para algo novo, visando que este alguém comece a aprender a pensar? Você tem alguma ideia?
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R4 — Vejo muitas dessas dicas pelas redes sociais, de “como ler mais”, ou “como ler os clássicos”, e assim por diante.
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Não acho que tenha uma fórmula, leitura é um hábito adquirido e, via de regra, quanto mais cedo, melhor.
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Ainda assim, e correndo o risco de parecer clichê, não há um período em que ler algo novo seja tarde demais.
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Se eu fosse sugerir leituras apaixonantes e clássicas, diria para ir construindo: ler “Crime e Castigo” antes de “Irmãos Karamazov” ajuda a ir se acostumando com a densidade maravilhosa de Dostoiévski.
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Ler “Metamorfose” antes de ler “O Processo” ajuda a entender o mundo metafórico de Kafka. Ler “Kafka à Beira-mar” antes de ler “Crônicas do Pássaro de Corda” ajuda a ler Murakami. Mas não é uma dica.
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Outra coisa é anotar os livros que os autores e as autoras que você gosta citam, para ver a fonte original.
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Bukowski cita Fante, e assim fui de um a outro. Murakami cita um monte de gente — Mann, Dostoiévski, Sōseki, dentre tantos outros. Por ele, cheguei nos outros.
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Uma terceira dica é insistir um pouco em livros que pareçam difíceis. José de Alencar, em seu “O Guarani”, usa de um texto que hoje nos parece antigo.
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Ainda assim, foi um livro que me tocou profundamente, depois que insisti com ele.
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Por fim, diria que ler coisas que você gosta ajuda a manter o hábito. Eu li todos os “Harry Potters” e adorei. Amo “Senhor dos Anéis”.
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Já li livro de história (lore) de Warcraft. Não acho que tenha leitura perdida.
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Mas, tentar enfiar uns mais difíceis no meio costuma ajudar a dar uma pitada de aprendizado.
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Mas quem sou eu, para ser coach de leitura? Hehe.
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P5 — Pois é!!! rsrsrs. Entre suas leituras, quais são seus gêneros literários preferidos?
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R5 — No começo, lia muita fantasia (Dragonlance, depois Senhor dos Anéis, Hobbit, Silmarillion, e diversos outros). Gosto de fantasia ainda, como algo de que tenho saudade. Já li diversos livros de King, Crichton, e outros destes contemporâneos.
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Atualmente, gosto mesmo de ler livros com uma pegada mais existencial ou interna, por falta de um termo que abarque o todo de suas escritas: Franz Kafka, Clarice Lispector, Dostoiévski, Bukowski, Fante, Pessoa.
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O escritor que escreveu os livros que mais gostei de ter lido foi Haruki Murakami, mas seu autor favorito — Natsume Sōseki — é muito, muito bom. Gosto de outros clássicos também, como Tolstói, Álvares de Azevedo, Machado de Assis. Li, há uns dois anos, José de Alencar (O Guarani) e achei maravilhoso.
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E, não posso deixar de citar, gosto das distopias: Yevgeny Zamyatin, Aldous Huxley, Ray Bradbury, George Orwell.
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Enfim, fujo destas perguntas de “qual seu favorito”, porque gosto de gostar, como se diz.
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P6 — Obrigado por não ter fugido na pergunta anterior, rsrsr, prometo não perguntar quais são seus livros favoritos!!! E obrigado por compartilhar tantos autores que considero muito. Entre eles, quem te inspira na hora de escrever?
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R6 — Eu costumo procurar um tema inicial na minha escrita. Em “Um caco de telha”, minha inspiração inicial foi uma sinfonia de Dvořák.
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Mas Murakami, Dostoiévski e Descartes já se fazem presentes desde o início. E Thomas Kuhn. Depois, vou indo atrás da informação.
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Na minha outra vida, sou professor e pesquisador na área médica, e boa parte de meu trabalho consiste em ir atrás de informação (pesquiso infertilidade masculina).
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Faço o mesmo em minha escrita. Leio algo que fica comigo, e acabo usando. Se preciso de uma perspectiva feminina sobre o sexo, procuro os textos de Anaïs Nin.
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Se preciso sofrer (rsrs), procuro os russos. Gosto muito dos autores e das autoras que falam sobre nossa construção pessoal da realidade que observamos.
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Ler filósofos (e os filósofos da ciência, em particular) ajuda bastante nisso.
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P7 — Por curiosidade, fui pesquisar sobre o Natsume Sōseki e descobri que ele é um escritor e filósofo… Outro dia vi um comentário seu sobre o Will Durant, que escreve sobre a história da Filosofia… Você é um “amigo da sabedoria”? Qual a tua ligação com a Filosofia
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R7 — Filosofia é o que há de mais basilar na construção do conhecimento (acho que mesmo ontologicamente, pode-se dizer isso).
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Faço grupos de leitura com meus alunos de mestrado e doutorado para discutir “O Discurso do Método”, de Descartes, ou “Estrutura das Revoluções Científicas”, do Thomas Kuhn.
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De resto, leio o que gosto: Camus, Nietzsche, alguns textos de Bacon, alguns outros de Platão ou de Hegel.
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Enfim, sem nenhum método. Uma fantasia recorrente minha é estudar seriamente filosofia, mas quando?
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P8 — Esses grupos de leitura com seus alunos, guardadas as devidas proporções, são parecidos com os grupos de Leitura Coletiva que vemos abundantes no Instagram? Você acha que estes grupos são importantes para ajudar na divulgação e incentivo da leitura?
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R8 — Na verdade, são mais estudos dirigidos dos livros, então é bastante diferente de como são as leituras coletivas.
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Todos lêem, claro, e isso há em comum. Durante a discussão, porém, existem questões do texto que precisam ser interpretadas e entendidas para construir o raciocínio científico.
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É mais parecido com os clubes do livro presenciais, em que há uma discussão do texto base.
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Na última vez em que discutimos Descartes, fizemos ainda atividades em grupo, dentro da disciplina de pós-graduação.
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P9 — Como foi que você virou escritor Ricardo? Foi tranquila essa transição de leitor para escritor? Você sempre quis ser escritor, ou foi acontecendo?
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R9 — Minha carreira consiste, em boa parte, em escrever artigos científicos. Sempre gostei de escrever, e já havia começado a escrever ficção muitas vezes, mas nunca havia avançado.
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Um dia, nasceu uma história triste dentro de mim, e eu precisei colocar para fora, transferindo essa dor inventada, entremeada a pedaços de minha própria alma, para o texto.
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Foi assim, e adorei me livrar dele. Acho que Nabokov estava certo: depois que o livro vem, preciso me livrar dele (a frase dele é bem mais eloquente).
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Não sei dizer se sou um escritor. Escrevo e, como Clarice Lispector, morro depois de finalizar meu livro. Se vou nascer de novo, não sei.
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P10 — Essa pegada mais existencial ou interna, como você falou lá na primeira resposta, você traz isso para seus livros? Conta um pouco sobre seus livros. (romances, contos…)
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R10 — Acho que o que mais me move a escrever é entender a emoção humana diante de diferentes situações. Como acho a tristeza particularmente bela, falo muito dela.
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Tenho um pouco de dificuldade de falar de meus livros, porque qualquer sinopse parece um resumo superficial, mas vamos lá.
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Meu primeiro livro foi “Um caco de telha”, que alterna a história de Álvaro, um homem de meia idade preso eternamente em seu mundo, triste, fechado, irrecuperável, e Nina, uma jovem livre, mas que sente que algo está fora de eixo, e que carrega uma tristeza que não consegue entender.
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Ela nem sabe se existe, em alguns momentos.
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Álvaro perdeu sua família, e Nina perdeu contato com seu pai. A história evolui flertando com a possibilidade de Álvaro ser pai de Nina, e de talvez se encontrarem em algum momento.
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Depois, contribui um conto — “Retesada” — para o Setenário Sombrio, uma antologia de terror.
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Foi uma delícia, porque o grupo de autores e autoras era muito legal de se trabalhar, e porque foi bem fora da minha área habitual de escrita, então acho que trouxe o terror de “Retesada” para minha pegada.
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O conto trata da história de Beatriz, uma mulher muito machucada pela vida, que parece ter sido amaldiçoada desde antes de nascer.
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A seguir, lancei recentemente meu segundo livro “Ecos de Narciso”, que conta a história de Pedro e Gabriela.
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Pedro é triste por sua história, e adora florear sua tristeza. Pedro ama sua tristeza, na verdade.
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Gabriela, paixão antiga de Pedro, é recém-divorciada e está resgatando algo que havia perdido de si mesma. Logo no primeiro encontro deles, Pedro entrega um envelope misterioso, que contém informações do passado dela que ela desconhece.
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Ainda que seja uma história com mais enredo do que “Um caco de telha” — traz crime, paixão, amor, abandono, tristeza, dentre outros assuntos — diria que o tema central é o de como somos definidos pelas relações iniciais de nossa vida.
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É um livro sobre filhos e seus pais.
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Todo livro tem um pouco do autor. Em meus livros, é fácil encontrar-me lá no meio.
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P11 — Muito bacana, Ricardo. Falar dos próprios textos não é fácil. Tem um outro livro que foi lançado recentemente, o “Boteco Maldito: uma antologia de terror”… conta um pouco sobre o livro, sobre o projeto. Vocês estão montando um Selo, é isso?
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R11 — “Boteco Maldito” nasceu, originalmente, de um grupo de leitura coletiva que foi crescendo e atraindo mais gente para discutir livros de autores independentes — a maioria deles livros de terror (mas não exclusivamente).
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Um dos participantes — Marcelo — escreveu um conto com diversos membros deste grupo, e a partir de então foi sendo parida a ideia de um livro de contos que tivesse em comum um boteco cujo proprietário fosse atemporal.
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Não é minha temática principal de escrita, então sempre é um desafio muito legal, porque me obriga a sair de minha escrita usual e usar outro tom.
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Para meu conto (“Os Espíritos de Dickens”), procurei escrever em um formato meio Pulp, meio Hardboiled, remetendo aos estilos de terror dos anos 40, 50.
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Batizei a autora que escreve estes meus contos de Bia Callena, baseada em uma Beatriz que sofreu demais em outro conto que escrevi, coitada…
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Sobre o selo, eu não sei muito bem sobre como isso está encaminhado.
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P12 — Ainda sobre o Boteco, como foi a experiência de compartilhar a escrita com outros autores e sob a coordenação da Dani Chimp, da Thiane e da Mariana?
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R12 — Acho uma experiência muito didática, interessantíssima, porque pessoas diferentes falam de maneiras diferentes.
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Para alguém que milita na escrita, ver algo dito de uma maneira diferente do que ele ou ela diria é quase uma violência, deliciosa de se passar.
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Além disso, é muito bom ver como diferentes linhas de histórias podem ser criadas partindo de um mesmo ponto em comum.
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A maneira como a criatividade se expressa em outros é particularmente algo que me interessa.
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Quanto à coordenação da Dani, da Thiane e da Mary, não tem nem o que ser dito, foi exemplar.
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Elas conseguiram dar devolutivas a todos(as) os(as) autores(as) de uma maneira bastante rápida e delicada, e isso foi fundamental para unir o fio dos textos.
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P13 — Ricardo, do pouco que você escreveu até o momento e do muito que você tem de contato com outros autores nacionais, qual sua impressão sobre o mercado literário brasileiro? Você acha possível viver da escrita aqui no Brasil?
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R13 — É uma pergunta muito difícil de responder. Leitura ainda é um hábito que pouco se adota no Brasil, de maneira geral.
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Gosto muito de escrever, e gosto muito de discutir minha escrita com os leitores e as leitoras. O resto — publicar, divulgar, entender o mercado, etc., não é algo que me apraz.
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Eu definitivamente não escrevo para viver disso. Como disse antes, escrevo para morrer, na verdade.
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Fazer uma carreira da escrita seria algo que, para mim, provavelmente faria a escrita em si perder o sentido.
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Enfim, viver de escrita é difícil em qualquer lugar do mundo. No Brasil, deve ser um pouco mais difícil.
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P14 — Projetos novos, Ricardo, tem novidades pintando por aí? Algum projeto ou livro em andamento?
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R14 — Estou lendo, ultimamente. Lancei uma música, recentemente, chamada “After the Night” (está em algumas plataformas como o Spotify), e gosto de brincar de gravar músicas.
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Comecei um livro em inglês e outro em português, e não sei qual contém a minha próxima história.
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Já achei meu libretto, acho, mas ainda estou longe de me engajar devidamente ao texto.
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P15 — Ricardo, chegamos aos finalmentes. Que entrevista sensacional. Mais uma vez, muito obrigado por participar desse projeto. Espero que tenha gostado de contar um pouco sobre suas leituras e escritas. Agora, meu amigo, este espaço é seu. Fique à vontade.
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R15 — Um prazer e uma honra ter sido chamado para falar aqui, Henrique.
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Gosto muito de falar sobre literatura, sobre o processo criativo, e qualquer dessas coisas que se pode falar tomando um chope em algum boteco num sábado à tarde.
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Este espaço que você criou é maravilhoso para autores e autoras independentes que querem ter um pouco de espaço para falar de suas obras, e eu sou muito grato pelo trabalho bonito e constante que você faz de seu lado para ajudar este sistema a evoluir.
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Agradeço também aos leitores e leitoras que acompanharam a entrevista!