Entrevista de Terça — Ana Lis Soares
A entrevista que trago dessa vez foi postada no Insta no dia 17 de setembro de 2019.
Na época a Ana estava planejando escrever um livro. Hoje, o livro dela foi lançado e podemos conferir ele aqui!
Abaixo reproduzo a entrevista do jeito que foi planejada na época.
P1 — Olá, Ana Lis, tudo bem? Conta um pouquinho pra gente sobre o que você faz? Tem a ver com literatura?
R1 — Ei, Henrique, obrigada pelo convite e espaço para falar um pouquinho sobre o que mais amo, os livros. Bem, sou formada em Jornalismo e trabalhei em diferentes redações ao longo de seis anos. Atualmente, estou me dedicando à escrita do meu primeiro romance, e rascunhando conto ou outro, que é o que mais gosto de escrever. Também tenho produzido conteúdo na minha página do Instagram, que é algo que tem me rendido muitos frutos bacanas. Lá, falo sobre livros, leituras, e tento esparramar um pouco do amor que tenho pelas letras. Tenho um blog, que já mantive com mais frequência, mas vez ou outra deixo algo lá.
P2 — Como a literatura entrou na sua vida? Quem te influenciou?
R2 — A literatura entrou na minha vida antes mesmo de eu ter noção de que existia! Risos. Brincadeiras à parte, desde que estava na barriga da minha mãe, ouço histórias. Bom, ela é jornalista, atriz, e tem algumas peças de teatro infantis escritas. E ainda tem meu pai, que é escritor e publicitário. Durante toda a minha infância, mamãe esteve à beira da cama contando histórias para que minha irmã e eu dormíssemos, meu pai também lia livros de autores nacionais ou contos de fadas para nós.
Como é possível imaginar, livros nunca faltaram em casa, nós sempre tivemos bibliotecas; eu e Lila tínhamos a nossa, mas a verdade é que nunca existiram restrições para irmos às estantes dos nossos pais, se tivéssemos curiosidade. E eu fiz muito isso a partir dos 12 anos, pegava uns clássicos, lia, folheava… Além do acesso — que é o maior dos incentivos, sempre vi meus pais lendo coisas deles, isso me encantava! Por fim, cresci com reuniões dos amigos deles em casa, com rodas de leitura, saraus, teatros, com meu pai indo e vindo de Bienal, de escolas (a maior parte da obra dele é de livros infanto-juvenis). Fora que meu avô paterno era linguista e possuía uma biblioteca de dezena de milhares de obras das mais diversas línguas, origens, em sua casa. A influência foi forte! Aos poucos, fui (e vou!) me descobrindo como leitora. Isso é algo que é “no gerúndio”, sempre.
P3 — Nos seus posts, a poesia aparece de forma bem impactante. Toda quinta-feira, por exemplo, você fala um pouco sobre o Drummond… Esse é seu gênero literário predileto? Gosta de outros gêneros?
R3 — Verdade. Criei o projeto “Drummond-se” no começo deste ano, algo que foi muito natural, pois eu queria ler Drummond mais a fundo — e compartilhar um pouco de poesia. Sinto falta desse gênero nas rodas de conversas, nas páginas de “bookstagram”.
Há algum tempo venho tentando quebrar um pouco do “preconceito” contra a poesia que vejo acontecer ao meu redor, mesmo entre pessoas que leem. Acho muito triste que as pessoas pensem que poesia “é difícil, é chato”. Pensava em como fazer algo que instigasse a leitura de poetas, especialmente brasileiros. Desse modo, quando tive a ideia do Drummond-se, — que pretendo estender para outros horizontes — quis mostrar que, sim, pode ser trabalhoso ler um poema, mas é um esforço intelectual, emocional, sensível capaz de nos mover, de explicar o mundo, de nos acalentar, de nos revelar o homem, de contar a história do mundo, de nos salvar!
Gosto muito de poesia, mas não é o gênero de que “mais gosto”. Ou, pelo menos, que mais leio. Sempre fui maior leitora de romances e contos. Mas acredito que cada gênero narrativo nos move de maneiras diferentes como leitores, nos exige demandas diferentes como seres humanos. Por isso, tento sempre variar.
P4 — Por falar em predileto, qual seu livro favorito?
R4 - A pergunta de um milhão de reais. Não acredito que tenha um livro que seja o meu predileto, até porque mudaria de ideia logo depois de digitar o nome do título. Alguns livros me comovem — e me fazem querer retornar a eles, mas são no plural. Costumo citar autores em vez dos livros, quando me fazem essa pergunta, porque depende de quem é a “Ana Lis” daquele dia. Costumo me referir a Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade. Por muito tempo o nome de Mia Couto não saía de minha boca, frequentemente falo sobre Valter Hugo Mãe.
Mas, para não ser tão evasiva aqui, e aproveitando o ensejo para instigar a leitura de Drummond –, citarei Sentimento do Mundo. Livro imperdível.
P5 — Você indica esse livro? Por quê?
R5 — Sim, especialmente em tempos nebulosos. É algo de muito tocante saber que Drummond escreveu poemas no fim dos anos 30 e começo da década de 40 e, de algum modo, dizer tanto do nosso mundo hoje, dos nossos sentimentos. Enquanto lia Sentimento do Mundo (foi publicado em 1940), sentia-me extremamente comovida e representada. Poemas como “Sentimento do mundo”, “Congresso Internacional do Medo”, “Inocentes do Leblon”, “Os ombros suportam o mundo”: sinto-me agradecida por compartilhar da mesma língua que um escritor como Carlos Drummond de Andrade. É de encher os olhos e o peito ler versos dele, ver que é possível fazer arte quando sabemos adentrar no “reino das palavras”. São livros assim que me abraçam e me dão a certeza de que a literatura — a arte — é capaz de nos elevar.
P6 — E os livros que estão na sua cabeceira atualmente?
R6 — Neste momento, acabei de ler o livro “Sonho das Pedras”, escrito por meu pai. Estou lendo Claro Enigma, do Drummond, que é incrível! também o argentino “La ilusión de los mamíferos”, de Júlian López, uma prosa poética de primeira categoria; e o maravilhoso Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici, leitura urgentíssima — especialmente a nós, mulheres.
P7 — Uma vez, trocando uma ideia com você, sobre a dificuldade de escrever, você disse que “é um tormento necessário”. Lembra disso? Rs. Explica pra gente, por quê?
R7 — Sim, me lembro bem, é algo que tenho pensado bastante, inclusive coloquei no meu último texto no blog (medim.com/@analissoares). “Escrever é tormenta necessária”, porque todos que escrevemos sabemos que o processo da escrita é algo que demanda energia, disciplina, paciência, minúcia; outra coisa que costumo dizer é que escrevo com o corpo todo — e isso é verdade: sinto da ponta dos dedos ao fio de cabelo o processo de escrita. É preciso vivenciar, ouvir, observar, sofrer, amar, alegrar-se, perder, abraçar, comer, brigar, amar, enfim, experimentar sensações e sentimentos para absorvê-los todos e, então, misturar tudo na cabeça, no estômago, no coração, na pele, nos pulmões… Até que isso gere algo de literatura. Ou não. Há coisas que ficam no diário mesmo! Risos.
É uma tormenta porque, muitas vezes, dói. É difícil retirar palavras daquilo que já está constituído — ou tornando-se parte de um “eu” — e fazer disso algo que não seja apenas desabafo, que não sejam palavras soltas. É desafiador fazer arte: e escrever é isso, exige esse remelexo interno, esse olhar para fora e para dentro, a paciência de esperar para que algumas coisas “transbordem”, a disciplina para retirar o que é preciso de nós e transformar em algo que faça sentido, que toque outras pessoas. Que seja coerente, bem feito. Ao contrário do que muita gente pensa, não somos seres iluminados, detentores de um controle mágico que traz palavras ao papel. Tudo isso é feito com muito trabalho — especialmente com muita leitura. E quando digo necessário é porque não há outra maneira de me comunicar ou mesmo de existir não houvesse palavras — e o silêncio entre elas.
P8 — E pra finalizar, você tem planos com relação a escrita?
R8 — Sim, muitos. Como disse, estou escrevendo meu romance, tenho uns contos escritos… Quem sabe logo não temos algo publicado? É para isso que tenho trabalhado.
E foi isso! Obrigado, Ana!!! Sigam esta autora no perfil do Instagram, @analissoares